Unida desde a eleição do megaempresário rural Blairo Maggi (PR), em 2002, a chamada “turma da botina” está rachada em Mato Grosso. Donos de forte influência no voto do interior do Estado, os ruralistas assistiram nos últimos anos à debandada de alguns dos maiores expoentes políticos do grupo criado em torno de Maggi.
A mais importante dissidência na “turma da botina” foi aberta por outro megaempresário rural, o candidato a vice-governador Otaviano Pivetta (PDT). Ex-deputado estadual e ex-secretário de Maggi, ele afirma ter forjado uma aliança com o industrial Mauro Mendes (PSB), situado em terceiro lugar nas pesquisas ao governo, para “oxigenar a política” e “combater novamente aqueles que combatíamos em 2002”. “O Blairo [Maggi] se uniu a todos que antes eram nossos adversários”, diz Pivetta, em referência ao grupo comandado pelo atual governador e candidato à reeleição Silval Barbosa (PMDB).Em campanha pelo interior do Estado, Pivetta reclama do considera “leniência” do ex-governador Maggi. “O que acontecia na época do João Arcanjo está de novo acontecendo”, afirmou, durante reunião com um grupo de simpatizantes em Campo Verde, a 160 km de Cuiabá. Arcanjo está preso desde 2003, acusado de chefiar uma suposta organização criminosa no Estado.
Em Rondonópolis, terceiro maior colégio eleitoral do Estado, o ex-governador Rogério Salles (PSDB) mantém intacta sua disposição de fazer oposição ao grupo de Maggi. “Tenho até boa relação pessoal com o Blairo, mas não concordo com a maneira deles de fazer política. Estão torrando milhões e são mais atrasados do que os velhos coronéis do antigo Mato Grosso”, diz ele, hoje candidato a deputado federal.
Em defesa de sua posição, Blairo Maggi tem se limitado a dizer que manteve a mesma linha de conduta que o levou ao governo. “Estou do mesmo lado que sempre estive”, afirma. Maggi relutou em aceitar a candidatura ao Senado. Queria uma composição com o grupo de Mauro Mendes, que teve seu apoio na corrida pela Prefeitura de Cuiabá, em 2006.
O governador-candidato Silval Barbosa engrossa o coro: “Estamos vendo o oportunismo contra a coerência. Quando é para atacar, sou o governador. Quando elogiam alguma coisa, eu era apenas o vice-governador”, afirma. “Até ontem, o Mauro Mendes dizia que o governo do Blairo era o melhor da história. Agora, somos os piores? Quem mudou de lado, afinal?”
Eleito com o voto ruralista em 2006, o deputado federal Homero Pereira (PR) rejeita prejuízos da divisão da “turma da botina” na política. “Boa parte dos produtores está fechada com Silval. É uma questão mais política do que eleitoral e o Blairo é o nosso grande líder”, defende. E cutuca o adversário: “O Pivetta está até sumido do interior”.
Mas o próprio Homero, ex-presidente da federação estadual da Agricultura (Famato), tem sofrido ataques do “fogo amigo” ruralista durante a campanha. O Ministério Público Federal abriu um processo contra Homero por suposto favorecimento e fraude de R$ 10 milhões em licitações do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). “O que tinha que dar, já deu.
O produtor sabe quem tem compromisso com o setor”, diz. Homero é um dos líderes nas pesquisas de intenção de voto para a Câmara dos Deputados, segundo o instituto Gazeta Dados. ( Mauro Zanatta - Valor Econômico)